sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
CNBB:"Não é possível apoiar processos que ameaçam a vida..."
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
FESTEJO DE SÃO SEBASTIÃO

São Sebastião Padroeiro de Altamira
O feriado foi respeitado em toda a cidade, neste dia 20 de janeiro de 2010. Pela manhã, liderada por Dom Erwin Krautler a caminhada da melhor idade aconteceu por mais de uma hora. Os fiéis numa demonstração de fé e agradecimento por graças alcançadas fizeram suas orações e pedidos ao santo Mártir.
Gente de todas as paróquias e comunidades de Altamira que vieram homenagear o Padroeiro, de perto ou de longe teve devoto pagando promessas, é o caso da pequena Vitória que veio de vermelho para agradecer por uma graça alcançada.
Bem ali ainda diante da igreja matriz a santíssima trindade foi invocada, foi momento também de pedir perdão pelas falhas cometidas no dia a dia. Aos poucos eles saíram em procissão. Os caminhantes percorreram varias ruas da cidade, rezando, cantando e conhecendo também a historia do Santo Mártir.Dom Erwin falou sobre a vida do Santo mártir que preferiu morrer do que abandonar a sua fé.
Em frente a escola Ciek
Do alto foi possível se ter uma idéia das milhares de pessoas que participaram da procissão dando suas demonstrações de fé em São Sebastião.
Nem a chuva que ameaçava cair desanimou os fiéis, que a todo tempo demonstravam alegria em participar da grande festa.
Em frente ao hospital municipal, um altar foi montado, crianças que estavam internadas foram pedir cura ao santo padroeiro durante mais a parada parada da procissão.
O bispo do xingu abençoou aos doentes.
O Hino ao glorioso São Sebastião Padroeiro de Altamira marcou o encerramento da celebração.
Com a colaboração de Benilza Miranda e Roney Santana
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Entrevista de Dom Erwin ao Instituto Humanistas
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Carta de Dom Erwin ao Presidente Lula

Dom Erwin expõe os principais pontos do projeto que não estão esclarecidos e realça a inviabilidade desta barragem várias vezes, como por exemplo, neste trecho da carta: "Não se sabe quantas famílias serão compulsoriamente retiradas de suas moradias. Não existem cálculos fidedignos. Nem sequer são relacionadas todas as ruas a serem alagadas. Fala-se de “ruas“ e não das ”moradias” ao longo dessas ruas. A população atingida está sendo tremendamente subestimada e isso vai comprometer o próprio leilão, pois as empresas não saberão quanto terão de gastar com os custos sociais. Sabemos que tais cálculos serão feitas na ponta do lápis. Gasta-se apenas o estritamente necessário. Onde já se viu uma empresa dessas comover-se e solidarizar-se com os pobres e promover obras de caridade para mitigar a miséria das famílias atingidas?" baixe a carta de Dom Erwin ao Presidente Lula
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Relatório da Presidência do Cimi referente ao período 2007-2009
Amigas e amigos queridos,domingo, 25 de outubro de 2009
Dom Erwin - livro em comemoração de seus 70 anos
No entanto não é um relato de simples impressões ou uma espécie de diário qualquer. Antes, uma rica fonte de pesquisa por se tratar de alguém que foi e é protagonista da história da Amazônia, do Xingu, da Transamazônica e da CNBB. Uma pessoa muito ligada aos movimentos sociais em favor dos mais pobres. Que pese ainda a luta contra o grande projeto de Barragens (no plural mesmo) que ameaça toda esta região de Altamira e Transamazônica. Por isso, professores, estudantes e apaixonados pela Amazônia aproveitem!
São fatos e impressões relatados com certa poesia. Pode-se dizer que os relatos são um cadenciado entre histórias emocionantes e divertidas e também de fé, contrabalaçados com documentos profundos, que relatam um denso contexto social e político vividos marcando o posicionamento da Igreja na história da Amazônia e de maneira particular, da transamazônica.
Dentre alguns fatos curiosos que o livro revela: o de que, num dado momento da História do Brasil, o senador Jarbas Passarinho foi uma pessoa decisiva na defesa dos direitos indígenas na Constituição de 1988.
O livro tem cinco grande tópicos: Missão, Povos indígenas, Mística, Denúncia e Testemunho. Um bom livro em todos os aspectos, para os católicos principalmente. Pois, pode servir também como uma boa lembrança a ser dada neste fim de ano.
João Alberto
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Carta de Dom Erwin ao Presidente do IBAMA

Carta de Dom Erwin, Bispo da Prelazia do Xingu ao Presidente do Ibama, Roberto Messias enviada neste dia 22 de outubro… Leia na íntegra a seguir:
Exmo. Sr.Dr. Roberto Messias Franco
DD. Presidente do IBAMA
Altamira, 22 de outubro de 2009
Excelência, Senhor Presidente do IBAMA,
caríssimo irmão,
Lembro vivamente a nossa viagem em 14 de setembro p.p. na META, de Altamira a Belém, quando estávamos sentados um ao lado do outro e, de repente, nos demos conta da função e do ministério que cada um exerce. V. Excia. ainda gentilmente me apresentou a advogada do IBAMA, Dra. Andrea.
Depois daquela viagem pensei entrar em contato com V. Excia. e marcar, se fosse possível, uma audiência para, à viva voz e olho no olho, tratarmos de assuntos que me preocupam imensamente em relação ao planejado AHE Belo Monte. O que me causa até insônias é a afirmação de V. Excia., veiculada pela imprensa, segundo a qual as quatro audiências públicas realizadas no Xingu e em Belém seriam consideradas suficientes para que a sociedade pudesse avaliar as consequências da obra planejada.
Peço vênia para divergir do posicionamento de V. Excia. Estou totalmente convicto de que a população do Xingu, que eu conheço muito bem, não teve nestas quatro audiências nem suficiente oportunidade de avaliar o projeto no que concerne às consequências irreversíveis nem o espaço necessário para manifestar seu ponto de vista. Tenho a impressão de que as audiências não passaram de mera formalidade. Na realidade, grande parte do povo que será atingido e impactado, se o projeto realmente for executado, ou não estava presente nas reuniões ou não conseguia manifestar-se. A maior parte do povo que será atingido vive muito distante da cidade.
Não seria mais humano ir até os lugares, por exemplo à Volta Grande, onde este povo vive e trabalha e onde realmente vai sofrer os tremendos impactos que modificarão toda a sua vida e a de suas famílias?
Não seria mais humano ir às aldeias para simplesmente ouvir o que os indígenas hão de dizer sem subjugá-los logo com uma ladainha já conhecida, mas até hoje não comprovada, de benefícios que o projeto vai trazer?
Não seria mais humano ir até às vicinais da Rodovia Transamazônica para encontrar-se com o povo da roça e ficar atento aos seus anseios e medos quanto à implementação de um projeto dessa magnitude?
Não seria mais humano ir para os bairros de Altamira que serão alagados para encontrar-se com o povo que está apavorado, pois seu futuro e o futuro de seus filhos está em jogo?
Não seria mais humano ir também aos municípios de Senador José Porfírio e Porto de Moz para ouvir o que a população, à jusante do rio Xingu, tem a dizer a respeito desse projeto que, em grande parte, secará seus rios?
Parece-me que até esta data somente as considerações e análises do setor energético do Governo estão sendo levadas em conta e pesam. No entanto há cientistas de renome nacional e internacional, estudiosos e peritos que se manifestam diametralmente opostos às ponderações daquele setor e comprovam cientificamente a inviabilidade socioambiental e até financeira do projeto. Os representantes do Governo, numa reunião realizada na casa da Prelazia em Altamira, até admitiram que os problemas não se situam na dimensão técnica, mas na dimensão socioambiental.
Ninguém duvida que o Brasil tem o know-how necessário para implantar Usinas Hidrelétricas, mas tenho absoluta certeza de que na dimensão socioambiental os estudos elaborados deixam muito a desejar e carecem de um maior aprofundamento, pois não se trata de máquinas e diques, de paredões de cimento e canais de derivação, mas de pessoas humanas de carne e osso, que conheço, de mulheres e homens, crianças, adultos e idosos, que sofrerão os impactos. Trata-se ainda do meio-ambiente, o lar que Deus criou para estes povos, que já começou a sucumbir fatalmente às inescrupulosas investidas de destruição e aniquilamento, tornando-se inabitável e deserto como já estou vendo em outras regiões do Xingu.
Eis a razão por que os movimentos sociais e povos indígenas da região da Transamazônica e do Xingu solicitaram ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA) a realização de 17 audiências públicas complementares.
Faço o meu apelo a V. Excia. e à sua formação cristã que não deixe de ouvir esse grito. Conheço o Xingu como a palma da minha mão. Conheço os povos do Xingu, de perto e pessoalmente, de inúmeros encontros, celebrações, reuniões e contatos, ao longo de 44 anos que aqui vivo, quase 30 dos quais como bispo. Amo esses povos e por isso entendo a minha missão de pastor como a missão de também irmanar-me com esses povos e seus movimentos e organizações na defesa do lar em que vivem e de seus legítimos anseios e suas esperanças contra agressões de qualquer tipo.
V. Excia. no cargo que ocupa e no ministério que exerce foi escolhido como guardião do Meio Ambiente. Faço votos de que sempre tenha a coragem e a força necessárias para tomar as decisões que, realmente e de modo sustentável, favorecem o Brasil e o seu povo.
V. Excia. poderá sempre contar com minhas orações.
Que Deus abençoe V. Excia. e sua família.
Cordialmente,
Erwin Krautler
Bispo do Xingu
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Movimento Social, Lula e Dom Erwin - A grande imprensa ficou calada. Por quê?
terça-feira, 4 de agosto de 2009
LULA - A INVIABILIDADE DE BELO MONTE É APRESENTADA PELO MOVIMENTO SOCIAL
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
DOM ERWIN RECEBE O PRÊMIO VERDE DAS AMÉRICAS
O Bispo não pode ir pessoalmente receber o prêmio em Brasília, devido ao cumprimento de sua agenda pastoral com as comunidades ribeirinhas na extensa Prelazia do Xingu. Ele foi representado pelo secretário nacional do Cimi.
O prêmio Verde das Américas é concedido a pessoas e instituições que contribuem para o desenvolvimento e a preservação ambiental do planeta. Em 2006 o prêmio foi concedido a Dom Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana, em Minas Gerais, na categoria direitos humanos. O oitavo encontro Verde das Américas, que acontece desde ontem em Brasília, reúne lideranças nacionais e internacionais envolvidas na luta em favor do meio ambiente.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Terra para a Vida - Artigo de Dom Erwin
Relatório da ONU aponta violação nos direitos dos índios do Brasil
Helen Bernardes
Canção Nova Notícias, DF
Esta será uma semana decisiva no Supremo Tribunal Federal. Os ministros vão decidir sobre a demarcação da área indígena Raposa Serra do Sol, localizada em Roraima. O representante da ONU para os Povos Indígenas no Brasil, James Anaya, divulgou um relatório mostrando que diversos direitos dos índios são violados, inclusive o direito à terra.
Em sua viagem de 12 dias ao Brasil o relator das Nações Unidas, visitou comunidades indígenas do Amazonas, Roraima e Mato Grosso do Sul. No relatório apresentado, ele concluiu que as leis de proteção aos índios do país são as mais avançadas do mundo, mas ainda não sairam do papel.
Segundo ele, a situaçao de saúde e educação é critica na maioria das aldeias. Os índios não são ouvidos em ações na sua comunidade e também não tem controle sobre suas terras.
O Bispo de Xingu, Dom Erwin Krautler, conta que o processo de homologação das terras duraram 30 anos e que o país agora deve reconhecer o papel dos índios no Brasil tanto no passado quanto no presente.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
É teu Povo, Senhor
Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu
Presidente do CIMI
“É teu povo, Senhor, que eles massacram,
é tua herança que eles humilham!”
(Sl 93 (94),5)
Uma história que não é de hoje
O Xingu é um rio peculiar e único. Não dá para compará-lo com qualquer outro rio da Amazônia. Só ele faz aliança com o majestoso Amazonas através de um largo delta. Na foz, suas lindas águas verdes-esmeralda se mesclam com as águas barrentas do rio-mar no qual se perde finalmente acima do Forte de Santo Antônio de Gurupá. Percorreu 2045 km desde Mato Grosso onde nasce a 600 metros acima do nível do mar na junção da Serra do Roncador com a Serra Formosa.
O Xingu é misterioso. Seu nome até hoje não tem explicação etimológica. Alguns estudiosos querem traduzi-lo como “casa dos deuses” ou melhor “Casa de Deus”, mas não se tem certeza qual seria a verdadeira raiz subjacente a este nome. Suas águas ora são calmas e pacíficas formando extensos lagos, ora furiosas e indômitas quando se estreitam em perigosas cachoeiras que já ceifaram muitas vidas de viajantes desavisados ou afoitos que teimaram em enfrentá-las. Pode ser que não seja a Casa de Deus, mas que é um rio sagrado para os povos que habitam nas suas margens há milhares de anos, quem teria a ousadia de negar!
O Xingu narra a história do paraíso de antanho e repete as palavras divinas “E Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1,31). Mas conta também a história da rebelião contra Deus, da prepotência e arrogância dos homens que queriam ser como deuses (cfr. Gn 3,5). Relata ainda a violência assassina que ceifou a vida do irmão e brada pelos séculos afora a palavra de Deus: “Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar por mim!” (Gn 4,10). Na realidade, as águas do Xingu deveriam ter a cor do sangue por causa das inúmeras chacinas que se perpetraram ao longo dos séculos passados. A fúria anti-indígena assassinou com armas de fogo a índios munidos apenas de arco e flecha e bordunas. Os invasores misturaram nas praças das aldeias com o barro vermelho também o sangue de indefesas mães e mulheres grávidas, jovens e crianças recém-nascidas. Milhares tombaram! E o mundo que se autodenomina de “civilizado” fechou os olhos, mostrou indiferença diante do sangue indígena bradando por justiça, gritando pelo direito de viver, reclamando a pátria que Deus criou para estes povos, defendendo o chão de seus mitos e ritos, chorando a terra onde sepultaram os antepassados. Até hoje o índio é chamado com desprezo de “silvícola”, um termo que insinua tratar-se apenas de algum bípede a mais, sem inteligência e livre arbítrio. Grande parte da sociedade envolvente vê ainda os povos indígenas como uma horda de malfeitores, de agressores hostis, selvagens, traiçoeiros, bárbaros, cruéis, não-confiáveis.
A história dos índios é uma história de rios de sangue derramado. Assim, tudo que hoje acontece de desfavorável, de adverso faz emergir do inconsciente coletivo destes povos todo o sofrimento do passado, toda hostilidade de que foram vítimas desde que os europeus fincaram o pé neste continente e os bandeirantes avançaram em todas as direções abrindo caminho a ferro e fogo.
Não faz tanto tempo que o próprio órgão governamental encarregado de proteger os povos indígenas, o Serviço de Proteção ao Índio – SPI, participou de massacres. Foi extinto por causa da repercussão no exterior das escandalosas carnificinas e substituído pela FUNAI. Em 1967 veio à tona o assim chamado “Massacre do Paralelo 11” que aconteceu em 1965. Um seringalista do Mato Grosso deu ordem para exterminar uma aldeia. Primeiro sobrevoaram o povoado e jogaram bombas, depois entraram na aldeia e mataram a todos. Eu mesmo vi uma fotografia que mostra uma mulher indígena presa pelos pés, de cabeça para baixo, ladeado por dois homens brancos com facões. Esquartejaram a mulher. A mera lembrança da foto me causa arrepios. Isso não aconteceu no tempo dos bandeirantes, mas há apenas pouco mais de quarenta anos.
Naquela mesma década de 60 outra agressão bem planejada aconteceu no Xingu. A ação criminosa nunca foi investigada. Os criminosos não foram identificados e punidos por homicídio qualificado cometido em série. Alguns políticos queriam a todo custo tirar Altamira do ostracismo. A cidade precisava ser ligada através de uma estrada – mesmo que fosse apenas uma picada – com Santarém, o portal a dar acesso ao mundo. O empecilho para concretizar o intento foram os índios Arara que viviam na região que hoje coincide com os municípios de Medicilândia e Uruará. Mas para não frear o progresso “esses selvagens” tinham que ser “eliminados”. Se a expedição avistasse um índio Arara, a ordem era de executá-lo. Imediatamente! Não se sabe do número exato de índios Arara mortos naquele tempo. Só se sabe que foram muitos. Morreram até eletrocutados quando se aproximaram do barraco da “força expedicionária” circundado por uma cerca de arame conectada com um grupo gerador. Os índios queriam ver os “brancos”, seguraram no arame e levaram choques de 220 volts. A história deste povo que vivia sossegado no meio da mata entre Altamira e Santarém culminou em outra tragédia durante a construção da Transamazônica. A nova rodovia passava a três quilômetros da aldeia dos Arara no igarapé Penetecaua. Os índios foram até perseguidos por cachorros. A forçada convivência com o mundo dos brancos trouxe doenças como gripe, tuberculose, malária. Outros tantos morreram! O mundo lá fora, no Brasil e no exterior, nada soube desta desgraça que desabou sobre um povo. Continuava a aplaudir “a conquista deste gigantesco mundo verde”, palavras que constaram da placa afixada no tronco de uma castanheira derrubada quando o presidente da República deu solenemente início aos trabalhos de construção da Transamazônica. A que preço! Nunca me esqueço do dia em corria a notícia de que, finalmente, os “terríveis índios arara” haviam sido dominados. Como prova de que o “contato” tinha sido um sucesso total, trouxeram uns representantes daquele povo que até então vivia livre na selva xinguara. Nus, tremendo de medo em cima de uma carroça, foram expostos à curiosidade popular como se pertencessem a alguma rara espécie zoológica.
Vivemos em outros tempos. Pelo menos assim pensamos. Celebramos sessenta anos de promulgação da Carta Magna dos Direitos Humanos. Qualquer discriminação racial é condenada. É proclamada a igualdade de povos e raças. No Brasil temos desde 1988 uma Constituição Federal em que os direitos indígenas são inscritos no Artigo 231. Foi abolida a tutela de um órgão estatal. Os indígenas, outrora equiparados aos menores de idade e aos deficientes mentais, alcançaram plena cidadania, não precisando mais ser tutelados. Tem todo o direito de ir e vir como qualquer brasileiro. Mesmo assim, enquanto já estamos festejando os vinte anos da Constituição “cidadã”, parte da imprensa ainda não se inteirou desta novidade constitucional e há jornais insistindo que ”a Polícia Federal deverá pedir explicações à FUNAI (...) já que o órgão é o tutor legal dos índios brasileiros” 1.
O salto qualitativo da letra constitucional para o chão concreto da realidade em que os povos indígenas vivem ainda não aconteceu. Se uma demarcação de área indígena é concluída com a homologação pelo presidente, prevista em lei, um clamor ensurdecedor se levanta pelo Brasil afora, reclamando que ”há muita terra para pouco índio”. E o pior aconteceu ha algumas semanas em Altamira. Uma rádio local se desdobrou em berrar agressões verbais contra os índios, insultos racistas que fazem inveja ao tratamento destinado aos judeus pelo regime nazista. Pensávamos que tais excessos pertencessem a um passado longínquo e tivessem sido há muito tempo extirpados do vocabulário jornalístico. Infelizmente nos enganamos! A onda anti-indígena assume novamente proporções alarmantes!
De Kararaô a Belo Monte.
Muitos não recordam o tempo a ditadura militar e, já que a memória tem fama de ser curta, poucas pessoas se lembram dos mandos e desmandos dos presidentes plenipotenciários daquela época. Um deles foi o General Emílio Garrastazu Medici. Tornou-se célebre pelo Projeto de Integração Nacional e a construção da Rodovia Transamazônica, inaugurada em setembro de 1972. Foi a década do “Integrar para não entregar” e de outro slogan que desencadeou uma migração sem precedência no Brasil. “Terra sem homens para homens sem terra!” exclamava eufórico o general-presidente, o que não deixou de ser um tremendo insulto aos povos indígenas que há milênios habitam a Amazônia. O presidente simplesmente os ignorou, despojou-os da cidadania, negou-lhes a existência, considerou-os definitivamente mortos.
Milhares de famílias rumaram do Nordeste, Centro, Sudeste e Sul para a Amazônia. No entanto, o Projeto de Integração Nacional previu também a construção de barragens. A rodovia cortou os grandes rios nas proximidades das principais quedas d’água. Já em 1975 a Eletronorte contratou a firma CNEC (Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores) para pesquisar e indicar o local exato de uma futura hidrelétrica. Em 1979 o CNEC terminou os estudos e declarou a viabilidade de construção de cinco barragens no Xingu e uma no rio Iriri, maior afluente do Xingu. Ao povo do Xingu negou-se qualquer informação mais detalhada. Só se sabia que o Governo pretendia tocar a construção o quanto antes possível.
Os povos indígenas reagiram pela primeira vez em 1989. Vieram uns 600 índios para Altamira e hospedaram-se no centro Betânia da Prelazia do Xingu. Vieram para protestar contra a decisão do Governo de sacrificar o rio Xingu. O encontro que os índios chamaram de “Primeiro Encontro das Nações Indígenas do Xingu” realizou-se nos dias 20 a 25 de fevereiro de 1989 e alcançou uma enorme repercussão nacional e internacional. A foto que retratou a cena em que a índia kayapó Tuyra encostou a lâmina de seu facão no rosto do então presidente da Eletronorte e hoje presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz Lopes, percorreu o mundo inteiro e virou a logomarca da oposição indígena ao projeto de hidrelétrica. Tuyra tornou-se a mulher mais famosa do mundo kayapó, mãe carinhosa com seus filhos e ao mesmo tempo guerreira intransigente quando se trata da defesa de sua terra e seu rio. Pouco depois daquele memorável encontro, o Banco Mundial negou o suporte financeiro e o projeto foi arquivado. Nunca, porém, foi abandonado. Já na década de 90 foi desengavetado! Veio à tona com mais força!
No inicio do mês de junho de 2007, reuniram-se outra vez representantes de vários povos indígenas do Xingu no Centro Betânia da Prelazia do Xingu e insistiram que colaborássemos com eles para promover um Encontro dos Povos Indígenas semelhante àquele que aconteceu em 1989. Os índios pretendiam chamar a atenção do Brasil e do mundo, condenando o projeto faraônico que ameaça imolar ao deus-progresso o rio Xingu que para eles é sagrado, símbolo da vida, dádiva de Deus.
No dia 3 de junho de 2007, os participantes do encontro foram para a beira do rio, em Altamira, para uma manifestação contra o projeto de hidrelétrica ressuscitado que recebeu o nome “Belo Monte” em substituição à denominação anterior “Kararaô” que equivale a um grito de guerra do povo kayapó. Mudou apenas o nome! O atual Governo o considera prioridade no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente Lula antes de ser eleito manifestou-se contra Belo Monte. Do mesmo jeito vários membros do Congresso Nacional, entre eles o deputado federal Zé Geraldo, eleito pelas comunidades do Xingu, declararam-se visceralmente contrários, quando estavam em campanha eleitoral. Mas que surpresa para todos nós: depois de eleitos mudaram de posição. O que antes condenaram com veemência, de repente, da noite para o dia, passaram a defender com unhas e dentes. O que estaria por trás dessa repentina metamorfose camaleônica?
Doravante, o povo do Xingu é informado de que se trata apenas de uma Unidade Hidrelétrica (UHE) e não mais de um Complexo Hidrelétrico. Não deixa de ser uma mentira deslavada que se propaga sem nenhum pudor, um artifício empregado propositadamente para ludibriar o povo. Todo mundo sabe que seria um incalculável desperdício investir bilhões de reais para uma usina que durante o verão tropical não tem condições de funcionar plenamente quando o volume de águas do Xingu diminui. É a estação em que extensas praias de areia branca e dourada emergem das águas cristalinas transformando a região numa paisagem deslumbrante. Mas os barrageiros não se deixam impressionar pela beleza exótica do Xingu. Já baixaram a sentença e fim de papo! O rio tem que ser sacrificado! É o preço a pagar! Outras barragens serão necessárias e estão programadas! Para adiantar o serviço, a Eletrobrás já dispõe de todo o “inventário” do Xingu com o respectivo mapa que prevê os barramentos e as áreas alagadas até acima da cidade de São Félix do Xingu. Parece tratar-se de estudos clandestinos, pois não são acessíveis ou revelados ao público, algo que deve estar levando o carimbo “matéria altamente confidencial” ou “segredo de Estado”. Por que todo esse sigilo?
No mesmo dia 3 de junho de 2007 um cacique kayapó subiu a um caminhão estacionado na avenida que margeia o Xingu, pegou o microfone e indagou gritando: “O que será de nossas crianças?” e acrescentou: “Não permitimos que as sepulturas de nossos ancestrais vão para o fundo!” Enquanto empresários e comerciantes defendem Belo Monte na acalentada esperança de “chuvas de dinheiro” desabando sobre Altamira e não se preocupam em nenhum momento com as consequências perniciosas para a vida de milhares de pessoas, mormente a população das baixadas que terá suas casas e propriedades alagadas, enquanto os membros desse consórcio empresarial abertamente demonstram que não lhes causa nenhuma inquietação se áreas indígenas demarcadas e homologadas são alagadas e o povo ribeirinho prejudicado, enquanto essa gente que em sua grande maioria veio de outros Estados não tem nenhuma dor de consciência diante de um programado desastre ecológico irreversível, um índio, até hoje considerado um supérfluo resíduo da idade da pedra lascada, esse índio discriminado e tratado com desdém ou desprezo, é quem dá uma lição a toda a sociedade. Esse consórcio ”comercial, industrial e agropastoril“ só pensa em si. Não mantém laços nem com o passado, nem os estabelece com as futuras gerações, não se relaciona nem com quem vivia antes nem com quem vem depois. “Aprés moi le deluge!” É uma associação de gente imediatista, interesseira e egoísta que aposta apenas em lucros fabulosos e declara guerra a quem tiver a petulância de opor-se a sua ambição e ganância que não respeita nada e ninguém. De repente, um índio chama a atenção para o direito das futuras gerações que também querem viver e estabelece ainda uma ponte com os antepassados, de quem herdamos este mundo que Deus criou. O índio teve a coragem de alertar para as consequências nefastas de um projeto megalomaníaco. À beira do rio, indígenas e não-indígenas se deram as mãos para selar o pacto de lutar contra a destruição do rio e da vida: Xingu Vivo para Sempre!
Em 1989 os índios se manifestaram, em 2007 insistiram de novo num grande encontro e mostramo-nos sensíveis ao pedido de todos os povos indígenas da bacia do Xingu.
Por que representantes da Eletrobras ou Eletronorte nunca passaram por uma única aldeia para ouvir os índios a respeito de Belo Monte? Por que não pediram ajuda de quem realmente entende do mundo kayapó para manter contatos com esses povos que são os primeiros a habitar esta terra? Por que essa discriminação, exclusão, marginalização dos povos autóctones? Por que?
Nas audiências chamadas “públicas” não se fala a verdade nem existe real possibilidade para o povo manifestar as suas dúvidas, fazer indagações e apresentar críticas. Essas audiências são apenas parte de um ritual em que os enviados da Eletrobras ou do Governo recitam o rosário de vantagens e benefícios. Só vantagens! Só benefícios! Parece terminantemente proibido criar no povo a sensação de que possa haver alguma sequela negativa ou algum dano irreparável. Se alguém se atrever em insistir e opor-se ao discurso oficial, a resposta repetida até criar náuseas é e será sempre: "É o preço a ser pago pelo progresso!" "É a exigência do desenvolvimento". Instados a explicar o que entendem por desenvolvimento e progresso, recusam-se a responder. Dizem que não vieram para discutir questões “ideológicas”. Fato é que a Eletronorte sabe o que convém à sociedade, não o zé-povinho. Causa realmente espécie a repetição de slogans, chavões prefabricados não com a intenção de esclarecer, mas de cooptar. Veja-se o caso da índia xipaia que está sendo aplaudida pelo pessoal do Consórcio e filmada afirmando que está a favor de Belo Monte, porque "o índio está no escuro". Sei quem é essa senhora. Ela mora há décadas na cidade e há luz na casa dela desde que há energia elétrica em Altamira. “CIMI não dá dinheiro! Dom Erwin não dá dinheiro! Eletronorte dá dinheiro, paga conta! Por isso somos a favor de Belo Monte!” são frases que foram ouvidas na aldeia de determinado grupo que se distanciou dos outros povos indígenas do Xingu e não participou mais de nenhum evento. Que maneira mais esdrúxula de defender a "UHE Belo Monte", cooptando índios menos avisados e ainda acenando com vantagens financeiras aos que prometem defender o projeto!
Obcecado pela idéia de acelerar o crescimento da economia, o próprio presidente Lula identificou como "entraves" a esta medida a questão dos índios, dos quilombolas, dos ambientalistas e até do Ministério Público. Considerou ainda "penduricalhos" os artigos da legislação ambiental pois estes parâmetros legais estariam travando o desenvolvimento do país. Por isso a ordem é de desconsiderar ou, pelo menos, não dar tanta importância a impactos sociais e ambientais. Caso contrário o País estaria condenado à estagnação. Mas, já que são exigidos estudos preliminares no caso de uma hidrelétrica, o Governo encarrega os primeiros interessados no projeto, os grandes empreendedores, de providenciar os estudos de viabilidade ou de impacto ambiental e social. Terão a seu dispor cientistas de sua inteira confiança que na mais cega obediência aos ditames superiores corroborarão a tese que já é definida antes do estudo: o impacto ambiental e social será mínimo ou praticamente nulo. Alega-se: “O Brasil não pode esperar!” Ou alguém pensa que uma dessas empresas esteja interessada em apontar impactos ou danos sociais e ambientais? Isso equivaleria a cortar o galho em que estão sentadas.
A pergunta chave é: A quem mesmo interessa Belo Monte? Ao Brasil? Vai melhorar o padrão de vida dos paraenses, dos xinguaras, do povo de Altamira, Vitória do Xingu, Souzel, Anapu, da Transamazônica, do Baixo Xingu? A energia, a quem será destinada? Todos sabemos que serão mais uma vez beneficiadas as multinacionais que vivem às custas do Brasil com todas as mordomias fiscais e facilidades energéticas. O preço da energia para a família brasileira é escandaloso, é exorbitante, mas as empresas transnacionais contam com a benevolência magnânima dos sucessivos Governos. O Pará, a Amazônia é considerada mera “província” energética, mineral, madeireira, última fronteira agrícola... Nunca saiu dessa categoria de “província”! A metrópole, o centro nevrálgico das decisões e deliberações, sempre se encontra alhures! Pouco interessa à metrópole se os povos da “província” passam bem ou vão de mal a pior. Algumas migalhas sempre caem, mais por descuido do que por amor aos pobres. E os nossos políticos, em vez de questionar esse sistema iníquo, de criticar estruturas prejudiciais aos povos da Amazônia, de exigir direitos e ”royalties”, aplaudem de pé e não hesitam em apelar até para a terminologia teológica quando falam em “salvação”, “redenção” da região, do Pará e da Amazônia. Infelizmente nada entendem da máxima do grande Santo Tomás de Aquino: “Gratia supponit naturam” (a graça pressupõe a natureza). No contexto da Amazônia: Jamais haverá redenção se a criação for arrasada, destruída, aniquilada! Aí só vai sobrar a desgraça, o caos, o apocalipse!
Xingu Vivo para Sempre
No dia 19 de maio de 2008 tive o privilégio de fazer a abertura do encontro Xingu Vivo para Sempre no Ginásio Poliesportivo de Altamira. Mais de seiscentos indígenas, mulheres, homens e crianças, entraram solenemente no recinto, cantando e dançando, erguendo suas lanças, bordunas e facões. Quem não se emocionou quando os índios kayapó cantaram o Hino Nacional em sua língua materna! A platéia aplaudiu entusiasmada.
Apresentei todos os caciques das 24 etnias presentes e saudamos os outros participantes do evento chamando-os por município. O ar foi festivo, animado, algo excepcional, pois não é todo dia que se vê tantos indígenas, pintados segundo suas tradições, dançando de acordo com os seus ritos milenares e cantando num idioma ancestral enquanto se movimentam num ritmo tão peculiar. Volta e meia, uma ou um kayapó levanta para fazer sua dança individual erguendo um facão ou mostrando borduna e lança, os homens com seus barítonos volumosos e fortes, as mulheres com vozes elevadas, incisivas, às vezes até estridentes. A beleza exótica das expressões culturais comove e impressiona. A juventude, presente nas arquibancadas, vibra com as danças e aplaude com prolongadas salvas de palmas.
Na manhã do segundo dia continuou a apresentação. Faz parte do ritual indígena que cada cacique fala, mesmo que repita argumentos ou opiniões anteriormente já expressos por um parente. Aliás, todos se entendem como parentes. A procedência geográfica não conta, nem sequer a etnia ou o tronco linguístico a que pertencem. Todos se tratam de “õbikwa”, familiares! Se um sofre ou é agredido, todos se sentem atacados. Quando se apresentam, falam primeiro em sua língua materna e depois traduzem, eles mesmos, a fala para o português. Uns tem mais facilidade de expressar-se em português, outros não conseguem fazê-lo de modo correto. Percebe-se a sua alegria, mas muitas vezes também a angustia ou indignação por causa de alguma decisão do Governo contrária a eles ou do avanço de latifundiários, mineradoras, madeireiras, garimpeiros para as terras habitadas por eles desde tempos imemoriais. São muito sensíveis a qualquer falta de consideração da parte da sociedade envolvente. Não ocultam a sua decepção. ”Já estamos cansados de ouvir e não ser ouvidos. Já estamos cansados de escutar ameaças de construção de barragens na volta grande do Rio Xingu. Não estamos só defendendo o Rio Xingu, mas os rios da Amazônia: moradia dos povos indígenas” reclama um dos caciques.
Ao término da apresentação foi composta a mesa de trabalho para os debates. Foram chamados o Professor Oswaldo Sevá Filho, da Universidade de Campinas (UNICAMP), o Engenheiro Paulo Fernando Viana Rezende, da Eletrobras, Roquivan Alves da Silva, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), Jean Pierre Leroy, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) e Glenn Switkes, diretor do Programa Latino-americano do International Rivers Network (IRD).
Oswaldo Sevá é conhecido nosso e dos indígenas. Veio para mais uma vez alertar sobre as consequências dos projetos hidrelétricos no Rio Xingu. Foi ele quem organizou o livro Tenotã- Mo, lançado em 11 de agosto de 2005, uma coletânea de artigos de especialistas de diversas áreas que pretendia provocar um amplo debate sobre as hidrelétricas na Amazônia. Fui convidado a escrever o prefácio para este livro. Para nossa total decepção, a Eletrobras nunca respondeu às indagações e críticas da parte do mundo científico. Percebe-se nitidamente a arrogância de alguns órgãos do Governo. Nós apelamos para argumentos, eles para o “poder”, ostensiva e cinicamente manifestado.
Entrei no Ginásio já no final da palestra do Professor Oswaldo Sevá. Chegou a vez do representante da Eletrobras, o engenheiro Paulo Rezende. Tive a impressão de que não encontrou tempo para se preparar. Assim optou por uma sessão “Power Point” como a Eletrobras costuma fazer quando é solicitada por prefeitos, vereadores, comerciantes e empresários. Na tela apareceram números e estatísticas, dificilmente identificáveis por causa da claridade do ambiente. A platéia começou a ficar inquieta e reagiu quando o engenheiro desqualificou o professor Oswaldo Sevá, chamando-o de “desatualizado”. As vaias se tornaram cada vez mais incisivas. Falei para a professora Mônica sentada ao meu lado: “Por que esse homem não pára, com todas essas vaias!” Pareciam antes estimular o engenheiro. Alteou a sua voz, elevando-a a um tom provocador.
O engenheiro cumpriu seu papel dentro do ritual previsto. Nada de admitir que o projeto possa trazer também consequencias adversas, irreversíveis. Aulas de pedagogia não devem constar da grade curricular de uma faculdade de engenharia. Assim o engenheiro não teve nenhum preparo para lidar com situações diferentes das que ele conhece no âmbito empresarial. Não conseguiu envolver a platéia, de modo especial os indígenas presentes. Perdeu as estribeiras e apelou para a arrogância. Por que não fez uma exposição mais simples para todo mundo entender? Por que não dividiu sua palestra em duas partes? Poderia, se assim o quisesse, falar primeiro das vantagens e dos benefícios que Belo Monte pode trazer. Em seguida abordaria com sinceridade e simplicidade as desvantagens, os prejuízos que, sem dúvida, a hidrelétrica irá causar. Mas nada disso aconteceu. Faltava franqueza e imparcialidade. O engenheiro transmitiu à platéia a sua convicção de que, haja oposição ou não, Belo Monte vai sair de qualquer jeito!
Quando após a palestra do engenheiro, o representante do Movimento dos Atingidos por Barragens, iniciou sua fala dizendo que os índios irão defender o Xingu para protegê-lo, ressoou de repente pelo ginásio um terrível grito de guerra. Os índios se levantaram e ergueram bordunas e facões e, em seguida, iniciaram uma dança movimentando-se em direção ao engenheiro. Vi os índios gesticular com facões e bordunas. Simbolizaram um ataque. Do lugar, onde eu estava, não pude observar que um dos fações resvalou no braço do engenheiro, ferindo-o. Quando consegui ficar mais próximo, percebi o corte no braço direito do engenheiro. Vi também como ele derramou toda uma garrafa de água mineral sobre o corte que sofreu. A intenção que teve, foi sem dúvida a de limpar a ferida, mas o resultado foi uma imensa poça d’água misturada com sangue que causou a tétrica impressão de que alguém havia sido esquartejado ou guilhotinado naquele mesmo instante. Inúmeras vezes esta mesma cena foi repetida nas reportagens de televisão. Sangue espalhada por toda parte. O engenheiro foi encaminhado para o hospital. Levou seis pontos e recebeu alta. Padre Renato Trevisan que tem uma larga experiência com o povo kayapó, além de falar muito bem seu idioma, solicitou a um cacique que apaziguasse na língua kayapó os espíritos excitados. O cacique pegou prontamente o microfone e falou a seu povo.
Nós, da coordenação e responsáveis pelo evento, ficamos espantados, muito aflitos e angustiados ao extremo. Imaginávamos logo a repercussão do acidente nos meios de comunicação. Havia gente nossa chorando convulsivamente. Ninguém se conformara com o acontecido. Tudo estava correndo tão bem, sem sobressaltos. E agora?
Afirmo com toda a ênfase e convicção que o corte com o facão que o engenheiro sofreu foi acidental! Muito lamentável, sem dúvida, mas jamais foi tentativa de homicídio, pois se os índios quisessem matar o engenheiro não o teriam atingido apenas no braço. Aliás, o próprio engenheiro em entrevista gravada para o programa “O Fantástico” da TV-Globo admitiu que foi um acidente. Repudio e rejeito por uma questão de consciência a afirmação de que a agressão foi premeditada ou programada. São as forças anti-indígenas que mais uma vez vêm à tona e agora se deleitam no macabro prazer de sustentar essa tese absurda.
A coordenação do evento veio imediatamente a público e falou do incidente lastimável. Redigimos uma nota em que lamentamos profundamente o ocorrido. Fui procurado por jornalistas e dei várias entrevistas a diversos canais de televisão. Mesmo assim, parte da mídia optou pela divulgação sensacionalista dos fatos o que engendrou todo tipo de comentário ao longo dos dias e semanas subsequentes. Condenaram sumariamente a Prelazia do Xingu e o seu bispo e as outras entidades coordenadoras do evento.
Pensávamos por alguns momentos até em encerrar o encontro, julgando que não houvesse mais clima para a continuação, mas, finalmente, decidimos de cancelar apenas a passeata pelas ruas da cidade de Altamira e substitui-la por uma manifestação à beira do rio Xingu.
No dia 23 de maio representantes dos povos indígenas e gente que vive ao longo do Xingu e seus afluentes, gente do campo e da cidade e representantes dos movimentos sociais se deram mais uma vez as mãos à beira do rio Xingu. Mais uma vez os índios discursaram e dançaram. As mulheres com as crianças entraram n’água para demonstrar como amam o rio e como dependem dele. Acabou o encontro Xingu Vivo para Sempre mas não acabou a luta em defesa desse rio maravilhoso e dos povos do Xingu. Foi lido o documento final em que os índios fazem questão de manifestar-se como “cidadãos e cidadãs brasileiras”. “Vimos a público comunicar ... a nossa decisão de fazer valer o nosso direito e o de nossos filhos e netos a viver com dignidade, manter nossos lares e territórios, nossas culturas e formas de vida, honrando também nossos antepassados, que nos entregaram um ambiente equilibrado. Não admitiremos a construção de barragens no Xingu e seus afluentes, grandes ou pequenas, e continuaremos lutando contra o enraizamento de um modelo de desenvolvimento socialmente injusto e ambientalmente degradante, hoje representado pelo avanço da grilagem de terras públicas, pela instalação de madeireiras ilegais, pelo garimpo clandestino que mata nossos rios, pela ampliação das monoculturas e da pecuária extensiva que desmatam nossas florestas”.
“Queremos o Xingu vivo para sempre!”
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Entidades Manifestam apoio ao Bispo Dom Erwin
Os movimentos sociais, as comunidades rurais e urbanas, lideranças pastorais, homens e mulheres da Transamazônica e Xingu vêm de público manifestar sua indignação diante das agressões morais que têm sido feitas ao Bispo da Prelazia do Xingu tentando mais uma vez destruir a sua imagem diante da população. O povo católico e a sociedade em geral sentem-se profundamente desrespeitados quando seu principal líder e pastor é alvo de explicitas ações de difamação e criminalização por causa de sua defesa incondicional aos direitos humanos, ambientais e culturais das populações dessa região.
Dom Erwin Krautler possui uma história de mais de quatro décadas de dedicação ao povo dessa região, em especial aos mais carentes, excluídos e oprimidos dessa sociedade. Com certeza muitos dos que o acusam ainda nem haviam nascido quando ele, enquanto padre e bispo, já dedicava sua vida a luta pelos direitos humanos no Xingu e na Transamazônica. Para as lideranças dos movimentos sociais, que tem Dom Erwin Krautler como um exemplo de dignidade e dedicação ao próximo, a difamação e as calunias contra ele veiculadas pela imprensa paraense, na ultima semana de junho do corrente ano, expressam uma agressão as organizações da sociedade civil comprometidas com o desenvolvimento sustentável e a justiça social.
Sobre o episódio queremos reafirmar a verdade dos fatos: o Bispo do Xingu não é suspeito e nunca foi denunciado pelo Ministério Público Federal sobre desvio de madeira no Estado. A prelazia do Xingu recebeu da Justiça Federal uma doação de madeira apreendida pelo IBAMA com autorização expressa de sua venda. Os recursos obtidos foram investidos na manutenção da Casa Divina Providência, em Altamira, que há muitas décadas abriga mulheres gestantes e pessoas doentes da zona rural que não tem onde ficar na cidade. São mais de duas mil pessoas, por ano, que recebem um amparo social, religioso e sanitário. Assim todas as demais insinuações maldosas sobre o assunto da madeira que envolva o Bispo do Xingu são mentirosas e tem o propósito criminoso de destruir a imagem do Bispo.
As palavras do informe do IBAMA Altamira sobre o assunto em questão, representam também o sentimento do movimento social: “São infundadas as notícias publicadas por empresas jornalísticas regionais, atacando a pessoa do Bispo Dom Erwin Krautler, publicando matérias ricas de imprecisão, confusas, maliciosas, eivadas de falácias, lançando calúnias. Editores que abusam de instrumentos caros à sociedade democrática, com publicações de mentiras, sem pesquisa, publicando matérias sem ouvir todas as partes, uma irresponsabilidade, cheirando a canalhice”.
Alertamos a todas as autoridades responsáveis pela segurança pública e pelos direitos humanos, que essa mesma orquestração de calúnias e difamação pública foi realizada contra a Irmã Dorothy Stang.Basta de violência e impunidade! Apoiamos e estamos unidas e unidos ao nosso pastor na sua atuação defendendo a vida. Rezemos juntos pelo nosso pastor Dom Erwin.
Exigimos das autoridades uma ação enérgica e punição exemplar a estes indivíduos que envergonham com atos infames o povo da Transamazônica e Xingu, pois corroídos pela inveja e pela sede do poder espalham o mal por onde passam.
Altamira Julho de 2008
Assinam: FVPP, Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Altamira Campo e Cidade, FETAGRI Regional Transamazônica e Xingu, Centro de Formação do Negro, Mov. Mulheres Maria Maria, La Salle, SOCALIFRA, Congregação Adoradoras do Sangue de Cristo, Instituto Maria de Mattias, Casa Divina Providência, Missionários do Sangue de Cristo, Irmãs Franciscanas de Ingolstadt. Pastorais da Prelazia do Xingu, S.O.S VIDA, CIMI, CPT, Comitê em Defesa da Vida das Crianças Altamirenses, SINTEPP, Fundação Tocaia, Fórum Popular de Altamira, SINDOMESTICA, Fundação Elza Marques, GTA Regional, STTR-Altamira, Fórum Regional de Direitos Humanos Dorothy Stang, Movimento de Mulheres Regional Transamazônica e Xingu, Pró Moradia do Parque Ipê, Associação Pro- Moradia do Bairro São Domingos, Associação de Moradores da Resex Iriri Grupo de Mulheres do Bairro Boa Esperança, Associação dos Moradores do Médio Xingu, Associação dos Moradores do Riozinho do Anfrisio, Associação Rádio Comunitária de Altamira, Conselho Municipal de Saúde, CMDCA
domingo, 1 de junho de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Poesia - Doroty
Zé Vicente
Eu fui a Anapu no dia 12 de fevereiro de 2008, três anos depois de teu martírio, Ir.Doroty!
Tuas irmãs, teus irmãos, e toda a tua gente de dor,de luta e de esperança, nos acolheram, a mim, Luizinha Camurça(CPT) e Stênio Pérsico(músico), com alegria de quem sabe muito bem, fazer da morte uma celebração de Vida e Esperança insubmissas.
O caminho percorrido é longo e a caminhada está aí, lenta e desafiante, assim como aquele trecho da transamazônica, esburacada, escorregadia, quando chove e empoeirada, quando o sol esquenta.
Eu vi o Rio Anapu, que chegou até o altar, na Igreja de Santa Luzia, tua colega de testemunho e martírio, durante o ofertório, naquela celebração eucarística de confirmação pascal. E não importa se ainda é quaresma e via-sacra! Com o rio nos braços, os frutos cultivados de maneira sustentável, erguidos nas mãos, berimbaus, flores e troncos em chamas, eu vi, sim, eu vi jovens e crianças, dançando em saudação a Bíblia e às oferendas, num ritual de graça e alegria cristãs.
Eu vi e ouvi o grito profético de D.Erwin Krautler, lúcido bispo católico do Xingu, consciente de sua missão pastoral e dos riscos que corre. Sua palavra, extensão atual, do texto do evangelho do dia ( Mt.6,7-15). Contundente denúncia sobre o descaso de quem tem o poder de governar e fazer justiça - políticos, funcionários públicos, dos órgãos encarregados do zelo da floresta e da vida das famílias que ali estão.
“Pai Nosso, venha a nós o vosso Reino, da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça,do amor e da paz!”
Na sua mensagem, D.Erwin, assume a voz dos que não podem falar, assim como deve ser a missão de todo aquele que se põe a serviço do pastoreio de um rebanho, em terras de tantas feras vorazes em ambição de bens e dominação, não importando se o sangue dos justos caiam sobre si. Meu Deus, e essas feras são nossos irmãos na mesma espécie humana!
As denúncias ganharam coro e força,na mensagem dos movimentos sociais e pastorais de Anapu,lida ao final da celebração: “...no terceiro aniversário do bárbaro assassinato de Ir.Doroty, queremos lembrar e viver o seu sonho,um sonho que é também nosso...”
Todos os atos do dia foram temperados com poesias e canções, entre elas aquela que compus no tempo de seca e lutas de 1982, em Crateús-Ceará, “Utopia”, considerada hino da caminhada por ali. Eu ouvi e senti a firmeza nas vozes ecoando Igreja à fora, mata à dentro...
O momento singelo, de peregrinação, atravessando o rio, na ponte balançante, até a tua cova, Doroty, naquele recanto que escolheste,dentro da Floresta, foi marcante e passará a fazer parte de nossas memórias sagradas. O som de tua voz livre, feminina, profética e de teu sorriso contagiante, vive hoje, como nota irmanada ao canto dos grilos, dos pássaros, do vento nas folhas e daquela menina que falou com lágrimas nos olhos, contemplando o teu rosto impresso na cruz: “tirem ela daqui, pra mim levar pra casa!...”
A causa maior, que não é só tua, Ir.Doroty Stang, mas de todos os homens e mulheres de boa vontade, causa sagrada da vida, do Reino de Deus, permanece para além de tua imagem que percorreu o mundo naquele doloroso dia 12 de fevereiro de 2005, como vibração de esperança, mas também como incômodo clamor nos ouvidos dos criminosos assassinos de gente, de animais e da Floresta Amazônica.
E queime também, como fogo abrasador, nos corações de quem tem o dever da ação e está omisso e cúmplice, portanto, dos crimes sem solução, mas também nas almas de quem se diz cristão ou cristã e nada fala ou faz, para testemunhar o compromisso irrestrito e solidário com quem está na missão e correndo riscos de vida, por testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo!
Zé Vicente, poeta-cantor
Contato: zvi@uol.com.br
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Irmã Dorothy Mae Stang - Homilia de Dom Erwin
Homilia de Dom Erwin Krautler na Eucaristia celebrada por ocasião do terceiro aniversário de morte de Irmã Dorothy Mae Stang.
Caríssimos irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo,
Celebramos o terceiro aniversário de morte de nossa Irmã Dorothy. Em 12 de fevereiro de 2005 ela foi brutalmente executada. Durante esses três anos muitas vezes fui perguntado por que uma Irmã que consagrou sua vida aos pobres e acompanhou sua luta por mais dignidade, por justiça e pelos mais elementares direitos de ter um chão para plantar e colher, por que essa Irmã dos pobres sofreu uma morte tão cruel. A resposta é simples e todos nós sabemos qual é. Ao colocar-se decididamente ao lado dos desfavorecidos, excluídos por um sistema capitalista selvagem que reina em nossa região, ela contrariou os interesses e as ambições de uma oligarquia que quer apoderar-se da Amazônia para usufruir de suas riquezas sem nenhuma preocupação pelas conseqüências para as futuras gerações. O lema é „aproveite-se enquanto puder“ e quem esboçar uma reação contra esta investida, corre risco de vida porque os representantes deste sistema agressivo à Amazônia reagem e conspiram imediatamente contra quem não rezar por sua cartilha. Dorothy foi vítima de seu amor à Amazônia. Por causa deste amor perdeu a vida.
A classe política se fez presente no dia do sepultamento de nossa Irmã. Anapu nunca viu tanto senador e deputado federal ou estadual. Hoje estou convicto de que a maioria dos que se fizeram presentes naquele funeral veio por causa da mídia que cobriu o triste evento. Essas autoridades que choraram ao lado do féretro queriam mostrar para o mundo que não compactuam com a morte e violência na Amazônia. Mas não deram nenhuma amostra de engajamento corajoso e valente para mudar a realidade. Não se converteram e a idéia de desenvolvimento que têm em relação a nossa região é meramente economicista. Pensa-se só em lucros imediatos e propositadamente se ignora as perdas irreparáveis. Delega-se às futuras gerações o enfrentamento da desgraça causada nestes tempos. É abominável uma geração descuidar de seus filhos e netos, deserdando-os por privá-los das mais elementares condições de sobrevivência.
Causa-nos revolta e indignação que o segundo julgamento do réu confesso Rayfram foi anulado, alegando-se que, „ao executar a freira, estaria potencialmente sob ameaça de cinquenta homens armados, os posseiros de Dorothy Stang“. É incrível até que ponto um advogado de defesa chega e mais incrível ainda é que não foi preso por ter levianamente acusado os agricultores do PDS de „pistoleiros“, equiparando-os ao criminoso que matou a Irmã. E pior, graças a essa intervenção o júri é anulado!
Que Justiça é essa que de repente inverte os papéis, imputando a criminalidade à pobre Irmã que derramou seu sangue e alegando legitima defesa para o assassino que disparou cinco tiros em cima da vítima indefesa, cuja única arma fora a Bíblia Sagrada?
Que Justiça é essa que depois de três anos não conseguiu ainda completar os inquéritos ou então os encerrou por motivos que nunca conseguem convencer-nos?
Que Justiça é essa que adia de ano em ano o processo contra pessoas altamente suspeitas de ter encomenado o crime?
Que Justiça é essa que nunca levou a sério a existência do „consórcio do crime“ nesta terra?
O Evangelho proclamado neste dia (Mt 6,5-14) faz parte do Sermão da Montanha. Jesus ensina a seus discípulos e discípulas a rezar. É a oração por excelência da Igreja e de todos os cristãos e cristãs. Cada versículo merece uma meditação especial, cada palavra é sacrossanta e toca o nosso coração.
No contexto desta Santa Missa em que lembramos o terceiro aniversário de morte da Irmã Dorothy, escolhemos o pedido „Venha nós o vosso Reino!“
Nascemos neste mundo, mas somos cidadãos, cidadãs de outro mundo. Somos chamados a colaborar na construção de um Reino que não é deste mundo, mas é para este mundo. Essa missão não é nada fácil. Somos enviados „como ovelhas entre lobos“ (Mt 10,16; Lc 10,3). Muitos rejeitam a mensagem que queremos anunciar. Não a rejeitam apenas, mas querem eliminar a mensagem e a quem a anuncia. Mas também nesta realidade conflitiva ouvimos as palavras de Jesus: „o servo, a serva não é maior que o seu senhor. Se eles me perseguiram, também a vós perseguirão“ (Jo 15,20). O Reino é dádiva divina, é graça de Deus, mas não dispensa nosso empenho. O que caracteriza mesmo o cristão, a cristã, é a perseverança em meio a adversidades e frente ao ódio e à violência.
Tombam irmãos e irmãs, sacrificados, executados pelos asseclas de um sistema iníquo, mas quem acredita no Reino de Deus e em sua justiça, não vacila nem treme. O sangue derramado de Irmã Dorothy, de Dema, de Brasília e de tantos outros por esta Amazônia afora é semente fecunda que se multiplica em inúmeros irmãos e irmãs que continuam no Caminho, apostam na utopia do Reino, acreditam no triunfo final de Cristo Senhor, não recuam e, se preciso for, estão dispostos a dar até a própria vida.
„Venha a nós o Vosso Reino!“ „Reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz” (Prefácio de Cristo Rei). Amem.
Anapu, 12 de fevereiro de 2008
Erwin Krautler, Bispo do Xingu
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
DOM ERWIN - CARTA À GOVERNADORA DO ESTADO DO PARÁ
Altamira, 21 de dezembro de 2007
Excelência,
Senhora Governadora, Querida Ana Júlia Carepa,
Em poucos dias celebramos o Natal do Senhor e saudamos o Ano Novo. Que 2008 nos traga as mais copiosas bênçãos divinas e a realização de nossos sonhos. Queremos um mundo melhor onde não há excluídos do banquete da Vida. Queremos um mundo justo, fraterno, solidário.
Nestes dias de festa, a paz costuma ser o tema privilegiado que ultrapassa todas as fronteiras partidárias e de confissão religiosa. Queremos paz para nossos lares, nossas comunidades, nossa cidade, nosso Pará, nosso Brasil, o mundo inteiro!
Já no Antigo Testamento o profeta Isaías declara: “E o fruto da justiça será a paz. A prática da justiça resultará em tranquilidade e segurança duradouras“ (Is 32,17). Estou cada vez mais convicto de que onde falta esta Justiça, a Paz é lesada ou se transforma em lúgubre “paz de cemitério“.
Simplesmente não me conformo com o fato de ter sido anulado o 2º Julgamento de Rayfram das Neves, réu confesso do assassinato da Irmã Dorothy Mae Stang que desde 1982 trabalhou nesta Prelazia e consagrou sua vida aos mais pobres entre os pobres. Fala-se de questões de ordem técnica-processual. O povo jamais conseguirá entender estas filigranas ou artimanhas jurídicas. Na realidade, sentimos mais uma vez o gosto amargo de termos sido ludibriados. Todas as nossas campanhas em favor da Justiça, nossas reiteradas manifestações em que em praça pública exigimos Justiça deram em que? Nosso Pará há tempo é o campeão de violação de direitos humanos. Nunca cessaram os assassinatos, as ameaças de morte, os despejos violentos, o trabalho escravo. A decisão de anular o julgamento do assassino de Irmã Dorothy mais uma vez conspurca a imagem do Tribunal de Justiça do Pará perante a sociedade nacional e internacional, ainda mais nestes dias depois que a mídia internacional se inteirou dos fatos horripilantes e vergonhosos, ocorridos em Abaetetuba.
O mais esdrúxulo argumento para anular o júri foi inventado pelo advogado César Ramos da Costa. É uma rara amostra de cinismo despudorado! Chegou a alegar “que o réu, ao executar a freira, estaria potencialmente sob ameaça de 50 homens armados, 'os posseiros de Dorothy Stang, e que o juiz teria se recusado a considerar tal fato, ao elaborar os quesitos aos jurados“. A Irmã foi barbaramente executada! Depois de mais de dois anos, um advogado chega ao cúmulo de inverter os fatos, transpondo a Irmã de de sua condição de vítima à condição de ré, argumentando que ela no ato de ser assassinada teria estado “potencialmente“ circundada de cinqüenta homens armados! E pior, esse causídico consegue com seu sórdido arrazoado anular todo um júri!
Mas não é só o “Caso Dorothy“ que nos preocupa. Há outros tantos casos que nos espantam porque continuam impunes ou sem nenhuma providência. Passo a relacionar apenas alguns, de que temos notícia através de nossa Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Alto Xingu
Em 29 de julho de 2006, junto com a mencionada CPT que atua nos municípios de Tucumã, Ourilândia do Norte e São Félix do Xingu, fiz a denúncia de três casos de violência contra trabalhadores em São Félix do Xingu, culminando em uma tentativa de homicídio e dois assassinatos.
O primeiro dos casos foi uma tentativa de homicídio contra o trabalhador rural Cláudio dos Santos Pontes, 34 anos, cujo inquérito policial indiciou como mandante do crime o fazendeiro Francisco Adebaldo Pereira de Araújo, proprietário da Fazenda Cristalina, São Félix do Xingu.
O segundo caso é o homicídio do trabalhador rural Antônio Bezerra da Silva, executado com três tiros na cidade de São Félix do Xingu na presença de várias pessoas. Até a presente data não foi apurada a autoria do crime.
O terceiro caso é o assassinato covarde do menor Henrique Aparecido Ribeiro, de 11 anos de idade. Henrique era filho do trabalhador rural Sidney Aparecido Ribeiro, que trabalhava por aproximadamente três anos e meio na Fazenda Estrela do Xingu, São Félix do Xingu, de propriedade de Ronan Garcia dos Reis.
Todos estes crimes estão ligados a denúncias e reclamações trabalhistas. Apesar de nossas denúncias, a situação permanece a mesma. Nenhuma providência foi tomada. Os trabalhadores continuam sofrendo perseguição e retaliações quando procuram seus direitos.
Neste ano de 2007 surgiram mais quatro casos: duas tentativas de homicídio e dois assassinatos. Passo a relatá-los.
No final de janeiro de 2007 o Sr. Faustino Pereira Pinto procurou a CPT em Tucumã após ter recebido um tiro de raspão na cabeça durante luta corporal com um pistoleiro. Estava esperando o ônibus na rodoviária de Tucumã para viajar a Xinguara no intúito de denunciar o patrão, Wilson Schmidt, na Vara do Trabalho. No dia anterior, o trabalhador havia sido agredido na casa do ex-patrão, tendo uma das costelas afetada. O inquérito foi aberto, mas ninguém foi indiciado.
O trabalhador Luís Antônio da Silva Pinto foi encontrado morto à beira da PA – 279, a 10 Km da cidade de Ourilândia do Norte. Ele iria mover ação trabalhista contra o “Aragão”. O trabalhador foi enterrado como indigente e, na época, nem sequer um inquérito foi instaurado para investigar o caso.
Em abril de 2007, o trabalhador Raimundo Silva Lima que trabalhava na fazenda Xodó em São Félix do Xingu, depois de ter saído da fazenda e reclamado seus direitos trabalhistas contra o patrão Vilton Souza, foi perseguido por duas pessoas em uma moto e só não morreu porque no momento dos disparos, o trabalhador se jogou em um brejo embrenhando-se no mato.
Já no mês de março de 2007, o trabalhador rural José Roberto Viana Cabral pro-curou a CPT para fazer uma reclamação trabalhista. No serviço de derrubada sofreu um acidente de trabalho que comprometeu o movimento de suas pernas. No dia 02 de novembro, dia de Finados, José Roberto estava voltando do mercado com sua filha, de sete anos, quando foi parado perto de um bar próximo à sua casa, por dois homens que se diziam policiais. Exigiram seus documentos. Ao conferi-los disseram: “É este mesmo!” e dispararam dois tiros na cabeça do trabalhador, na presença da criança e outras testemunhas, fugindo em seguida numa moto. O trabalhador havia ingressado com ação trabalhista contra Avilton de tal (Supermercado Bom Tempo), para cobrar os direitos decorrentes da não-reintegração ao mercado de trabalho após a alta previdenciária. Havia audiência marcada para dia 16 de novembro de 2007.
Mais uma vez denunciamos a grande morosidade da polícia na investigação dos crimes, principalmente quando as vítimas são trabalhadores/as e sem condições financeiras.
Esses novos atos de extrema brutalidade atestam por si mesmos que os atentados contra a vida humana não cessaram. A impunidade é reflexo da falta de presença efetiva do Estado, Parece que não é a Lei, mas o revólver e o dinheiro que ditam as regras no Alto Xingu.
Junto com a CPT-Alto Xingu venho assim mais uma vez exigir providências sérias e decisivas para reprimir o clima de violência e morte que predomina na região.
As medidas mais urgentes, em nosso modo de entender, são:
1- Reforçar a Polícia Civil, notadamente os quadros que fazem a investigação policial;
2- Reforçar a Polícia Militar;
3- Melhorar o funcionamento do Judiciário, ampliando o quadro da promotoria (atualmente há apenas dois atuando em três municípios).
Conto com o empenho decidido de V. Excia. para que haja Paz na região do Xingu, como fruto da Justiça.
Feliz Natal e as bênçãos divinas para o Ano Novo!
Cordialmente,
Erwin Krautler
Bispo do Xingu
Obs: carta do mesmo teor foi enviada para: Ministro Paulo de Tarso Vannuchi, Secretário Especial dos Direitos Humanos, Tarso Fernando Herz Genro, Ministro da Justiça, Romeu Tuma Júnior,Secretário Nacional de Justiça, Antônio Carlos Silva Biscaia, DD. Secretário Nacional de Segurança Pública, Vera Lúcia Marques Tavares, Secretaria de Estado de Segurança Pública, Maria do Socorro Gomes, Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos, e ao SDDH.










