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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Homilia de Dom Erwin no 5º ano de morte de Dorothy Mae Stang



 "não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida"
1 Tes 2,8
Quinto aniversário do assassinato de Irmã Dorothy Mae Stang, NDdN

Cinco anos passaram desde aquele fatídico sábado em que Rayfran e Clodoaldo, empregados de Tato, cruzaram o caminho da Irmã Dorothy, não para cumprimentá-la, mas para executar o sinistro plano, há tempo concebido pelo consórcio do crime, e cumprir o nefasto papel de matar a Irmã que dedicou toda a sua vida aos pobres. 

Os pobres de hoje não são apenas uns explorados e oprimidos. São excluídos, expulsos da sociedade e da terra por serem considerados "supérfluos" (cf. DAp 65). Irmã Dorothy fez a opção de sua vida exatamente por essas pessoas, por essas famílias "sem eira nem beira", desprezadas e maltratadas, sem perspectivas num mundo em que perderam sua pátria

Foi aos pobres, que Deus assegurou seu amor incondicional e preferencial. As palavras do profeta Jeremias calaram fundo no coração de Dorothy: "Ponde em prática a justiça e o direito, livrai o oprimido das mãos do opressor, nunca prejudiqueis ou exploreis o migrante, o órfão e a viúva nem jamais derrameis sangue inocente no país" (Jer 22,3). Dorothy não apenas acompanhou as famílias de Anapu e da Transamazônica na busca de seus direitos e defendeu seus interesses, peregrinando de repartição em repartição, procurando falar com prefeitos, vereadores, deputados, senadores. Dorothy fez e foi muito mais: Ela amou! E esse amor fez vibrar cada uma das fibras de seu coração. Ela foi mãe, foi irmã, foi filha de seu povo! Dorothy nos lembra a passagem tão sugestiva na primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses: "Apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como u'a mãe que acaricia os seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos" (1 Tes 2,7-8).

Naquela manhã de sábado, 12 de fevereiro de 2005, ela testemunhou "o evangelho de Deus", derramando o seu próprio sangue. Foi morta porque amou sem medida, foi trucidada porque entendeu que seu lugar era "ao lado dessas pessoas constantemente humilhadas"1 foi assassinada porque abraçou "a justiça e o direito" e lutou para livrar "o oprimido das mãos do opressor" (Jer 22,3), foi eliminada do meio do povo pobre porque contrariou os interesses e ambições de "gente que se considera poderosa", como ela mesma costumava expressar-se.

Dorothy viveu em vida a opção pelos pobres sem deixar-se intimidar ou constranger. Com a sua morte, porém, Dorothy ultrapassou todos os limites e fronteiras. Sacudiu o mundo, descerrando a face ensanguentada da Amazônia, fazendo ecoar os gritos e revelando as dores que golpeiam os povos que aqui vivem.

Cinco anos passaram! Cinco anos, também repletos de tramas e trâmites judiciais. Prisões efetuadas com grande alarde, sentenças condenatórias solenemente proferidas e com a mesma solenidade anuladas, pedidos de habeas corpus deferidos e liberdade provisória concedida. Sempre novas versões do crime, chegando até ao cúmulo absurdo de transformar a vítima em ré, alegando legítima defesa.
Há poucos dias um dos acusados é preso outra vez2 . Foi condenado a 30 anos e absolvido em um segundo julgamento. Agora outro recurso consegue anular o veredicto anterior e o fazendeiro recebe novamente voz de prisão. E a imprensa divulga o fato como se fosse a prova mais convincente de que a Justiça funciona. Só tem um detalhe! Nós todos já estamos saturados de tais notícias. Em breve, algum advogado experto vai achar outra brecha na legislação e o homem conseguirá mais um alvará de soltura para acrescentar à sua coleção. O mesmo se diga do tal desaforamento anunciado agora3. Precisava cinco anos para chegar a essa conclusão?!
E o consórcio do crime? Nada mais tem a temer! A poeira há tempo sentou. Afinal, já há quem responde pelo homicídio! Por que procurar outros para submetê-los a processos complicados? Por que investigar a quem já não quer lembrar-se de nada? E aqueles que de longa data prepararam o terreno e o ambiente para que a irmã fosse morta? Agora negam tudo! Há pessoas que andaram de cima para baixo com a Dorothy e com ela comeram farofa na casa da Prelazia. Hoje estão do outro lado! Habilitaram-se a jogar no time adversário! É o salmo 41 bem atualizado: "Até meu amigo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou o calcanhar contra mim" (Sl 41 (40),10).

Neste ano de 2010, o mês de fevereiro, em que Irmã Dorothy foi assassinada, ganha mais uma razão para tornar-se histórico. A Amazônia que Dorothy tanto defendeu e pela qual doou sua vida, recebe mais um golpe, desta vez de proporções que ainda nem sequer podemos vislumbrar. O Presidente da República me prometeu pessoalmente4 a continuação do diálogo sobre o projeto Belo Monte. No dia primeiro deste mês o Ibama tornou pública a licença prévia para que o Xingu fosse barrado. 1522 km2 de destruição à vista: 516 km2 de área inundada e 1006 km2 de área deteriorada porque faltará água!

Todas as 40 condicionantes que a Licença Prévia elenca para serem observadas pela empresa que sairá vitoriosa no leilão, nada mais são que uma confissão pública do Governo de que o projeto, se for executado, terá consequências desastrosas. Ao exigir um bilhão e meio de reais em projetos para mitigar os efeitos, o próprio Governo admite de antemão que Belo Monte causará um terrível e irreversível impacto sobre a Amazônia. Onde já se viu tanto esmero para atenuar sequelas antes de iniciar a obra? É a prova cabal de que o próprio Governo sabe que está dando um tiro no escuro. Até esta data, o Ibama nem sequer conseguiu identificar a abrangência e intensidade dos impactos. Como esse órgão então pode realmente atestar a viabilidade de Belo Monte?

Lamentavelmente, quem sofrerá os trágicos efeitos não serão os tecnocratas em Brasília e políticos míopes, mas os povos desta região da Amazônia. O Xingu nunca mais será o mesmo. O solo será danificado, a floresta devastada e das águas turvas e mortas emergirão apenas os esqueletos esbranquiçados das outrora frondosas árvores.
É a política do rolo compressor, é a tática do fato consumado, é o método do autoritarismo que não aceita contestação!

E Dorothy, no seu túmulo, chora a desgraça anunciada!

Mas não deixa de encorajar-nos na luta em favor da vida contra projetos de morte. Nosso caminho é aquele traçado pelo Evangelho. Somos enviados por Jesus para anunciar a Boa Nova aos pobres e denunciar o que se opõe ao Evangelho da Vida, para quebrar as algemas da opressão e tirania, para defender o lar que Deus criou para todos nós e as futuras gerações, e proclamar um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4,18-19).

Amém! Marána thá! Vem Senhor Jesus!

Anapu, 12 de fevereiro de 2010
Erwin Kräutler, Bispo do Xingu
1 Irmã Dorothy declarou em sua última entrevista que concedeu a Carlos Mendes de "O Liberal" em 2 de fevereiro de 2005, exatos dez dias antes de ser assassinada: "Sei que eles querem me matar, mas não vou fugir. Meu lugar é aqui, ao lado dessas pessoas constantemente humilhadas por gente que se considera poderosa" E mais adiante: "Eu acredito muito em Deus e sei que ele está comigo. Mas prefiro falar de vida e não de morte. O nosso povo tem um projeto de uma vida melhor com o PDS. Não tenho tempo de pensar em coisa ruim. Mas, se eles me matarem, eu gostaria de ser enterrada em Anapu, junto daquele povo humilde. O Pará é a minha terra." 
2Apontado como mandante da morte de Irmã Dorothy, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, se apresentou, dia 6 de fevereiro de 2010, à delegacia de Altamira. Eduardo Imbiriba, advogado do fazendeiro, pretende entrar com um pedido de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF). Bida foi condenado a 30 anos de prisão em 2007, mas acabou inocentado no segundo julgamento, em maio de 2008. Em 2009 a Justiça anulou a absolvição do fazendeiro e decretou nova prisão. Segundo Notícias do Poder Judiciário de 10 de fevereiro de 2010, 19:30, o juiz Cláudio Henrique Rendeiro, em exercício na 2ª Vara do Tribunal do Júri de Belém, agendou para o próximo dia 31 de março a sessão de júri popular a que será submetido o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura,
3 Os desembargadores das Câmaras Criminais Reunidas decidiram manter a decisão do Tribunal de Justiça do Estado em 2006 e transferir o caso de Regivaldo Pereira Galvão, o taradão, para a Comarca de Belém. 
O desaforamento foi pedido em 2006 pelo juiz Lucas de Jesus e, em 2009, pelo juiz Haroldo Silva da Fonseca, ambos da Comarca de Pacajá, à qual o município de Anapu é jurisdicionado. 
Galvão é outro acusado de ser um dos mandantes do assassinato da Irmã Dorothy. Após a apreciação do pedido de desaforamento, realizada dia 8 de fevereiro de 2010, deve ser marcada a data do julgamento, que deve ocorrer ainda este ano. 
A relatora do processo foi a desembargadora Vânia Silveira (cf. Diário do Pará, 09.02.2010).
4Audiência concedida em 22 de julho de 2009 no Gabinete da Presidência da República.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Bida preso novamente

Foi por volta das cinco horas da manhã do último sábado quando o Fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura o Bida chegou a superintendência da policia civil acompanhado da advogada. Bida se apresentou ao delegado de plantão, logo o superintendente foi convocado. Segundo Francisco Pinto o mandado de prisão foi expedido pela desembargadora Vânia Silveira, presidente da 1ª Câmara Criminal Isolada do Tribunal de Justiça do Pará chegou no final da tarde de sexta-feira, depois que o STJ caçou o hábeas-corpus que mantinha o fazendeiro em liberdade.

Bida, é um dos acusados de mandar assassinar a missionária Dorothy Stang. O crime aconteceu em fevereiro de 2005, no município de Anapu. Dorothy lutava pela implantação dos projetos de desenvolvimento sustentável, pela reforma agrária e pelos direitos dos pequenos agricultores. Na primeira sessão de júri popular que ele foi submetido em maio de 2007, Bida foi condenado a 30 anos de reclusão. Como a pena foi superior a 20 anos, o réu teve direito a novo júri, ocorrido em maio de 2008, dessa vez, o acusado foi absolvido. Em abril do ano passado o segundo julgamento foi anulado a pedido do ministério publico, Vitalmiro foi mais uma vez preso e dias depois conseguiu um hábeas corpus que o mantinha em liberdade, até a semana passada. Ainda na delegacia Bida disse que estava na fazenda quando foi comunicado da prisão e que os advogados estavam trabalhando para sua liberdade.
Colaboração: Benilza Miranda, Roney Santana

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Não esqueceremos, nunca! 12 de fevereiro de 2005


Amigos e Amigas,

Um abraço bem grande e cheio de saudades! O novo ano já começou e estamos na fase de planejamento e propostas novas. Este ano 2010 promete muita coisa boa para nós, principalmente no nível de organização do povo, o aprofundamento de nossa coletividade e a qualidade de Celebração desta nossa fé tão enraizada na caminhada comunitária da nossa vida. Então vamos para frente, crescer juntos e aprender viver cada vez mais o Brasil e Anapu diferente que sonhamos.

Nossa primeira atividade do ano é sempre a celebração da vida de Irmã Dorothy no dia 12 de fevereiro. Este ano completa cinco (5) anos desde o assassinato cruel que tirou a vida dela. Não esqueceremos nunca a brutalidade daquele dia cinco anos atrás, mas queremos lembrar neste dia 12 de fevereiro agora, principalmente a vida da Irmã Dorothy e a sua luta junto ao povo para defender a vida do povo, da floresta e da natureza. Defender a vida do povo é também defender o lar do povo, a terra, a floresta, a água, a natureza inteira. Segue o roteiro para a celebração do dia 12 de fevereiro. Venha, caminhar e celebrar conosco. Chegue cedo no dia 11 de fevereiro para ajudar também na limpeza, decoração e cozinha. Precisamos de vocês. Sim, haverá arrecadação de alimentos para o almoço e o jantar comunitários. Contamos como sempre com sua generosidade que nunca falta. Este ano não temos transporte, então os alimentos terão que vir de moto ou carro de linha. Entrega na Secretaria da Paróquia, na CPT, na casa do Padre Amaro ou na casa das Irmãs.

11 de fevereiro Limpeza geral de São Rafael, Igreja e Padre Josimo – o dia todo! Almoço incluído.

12 de fevereiro
5 h Alvorada nas ruas – Se juntam nos bairros, saindo em procissão, cantando,
chegando na praça principal ás 5 horas. De lá sairemos juntos em alvorada.
Café comunitário depois no Salão Paroquial Padre Josimo.
9h Celebração da Eucaristia: com Crisma e a Entrada de Zenilda e Helena
com as Irmãs de Notre Dame. Celebrante principal: Dom Erwin
12h Almoço Comunitário – Salão Paroquial Padre Josimo
14h Cristo-Teco, Danças folclóricos, Hip Hop, e muito mais – Salão Paroquial
16,30h Peregrinação até o Tumulo de Irmã Dorothy onde haverá uma mística que inclui a
plantação de 200 pés de mogno
18,30 Jantar Comunitário – Salão Paroquial Padre Josimo
20h Confraternização e Forro de Irmã Dorothy – É familiar, sem bebida alcoólica.
Salão Paroquial Padre Josimo.

13 de fevereiro Limpeza geral de manhã cedo. Inclui café da manhã. Venham todos e todas nos
ajudar!

Esperamos a sua chegada desde já. Um abraço grande da Equipe da Pastoral, da CPT e do CDA!

A Comissão Pastoral da Terra tem sua raiz e fonte no Evangelho e tem como destinatários de sua ação os trabalhadores da terra por fidelidade ao Deus dos pobres, à terra de Deus e aos pobres da terra. Deus ouve o clamor do seu povo e está presente na luta dos trabalhadores (Ex. 3, 7-10)”.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

MENTINDO EM JUÍZO IMPUNEMENTE UMA VEZ MAIS

Sobre julgamento do matador confesso de Dorothy Stang dia 10, quinta feira, Dia Internacional dos Direitos Humanos, em Belém do Pará.

Nota da Congregação de Notre Dame de Namur, 7 de Dezembro de 2009

“Volto a repetir que não existe a menor sombra de dúvida que o crime praticado contra a vítima foi adredemente premeditado, havendo uma cadeia formada hierarquicamente, onde figuram mandantes, intermediário e executores, cada um desempenhando nitidamente seu papel, com o único e comum objetivo de ceifar a vida de Dorothy Mae Stang”.

E que “só me resta a concluir, com base nas provas satisfatórias e contundentes constantes dos autos, que Rayfran agiu motivado pelo dinheiro que receberia de Vitalmiro e Regivaldo, restando provada a qualificadora de promessa de recompensa pelo serviço prestado.

Texto do voto relatório, Desembargadora Relatora Vânia Silveira, em 12 de maio de 2009, rejeição do recurso de Vitalmiro Bastos contra anulação do julgamento anterior (maio de 2008) no qual este foi inocentado e Rayfran das Neves teve seu crime reduzido para homicídio simples. Decisão obtida mediante uso de prova fraudulenta. Voto apoiado por unanimidade dos Desembargadores da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Pará.

1. Este será o quarto júri de Rayfran das Neves, um dos executores. No banco dos réus deveria estar também Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, um dos mandantes. É o quarto porque o julgamento anterior foi ANULADO por fraude da defesa dos réus. Reconhecida pelo Tribunal de Justiça do Pará .

Fraude na qual intencionalmente concorreram Rayfran e o intermediário Amair Fejoli ator de gravação fraudulenta montada como suposta reportagem. Nela Amair mentiu negando participação e condução do crime por Vitalmiro Bastos e Regivaldo Galvão, com intento de deixar Rayfran das Neves como único responsável pelos seis tiros com a arma que ele forneceu e tentar encobrir os mandantes, parte da “cadeia formada hierarquicamente” para a concretização do crime. Vídeo realizado com recursos materiais e pessoais de gente de fora do presídio, onde os dois réus-personagens estavam. Vídeo que constituiu outro crime continuado de falsidade da quadrilha.

2. Em maio de 2009, a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Pará anulou por unanimidade a escandalosa decisão de inocência de Vitalmiro Bastos e de condenação por homicídio simples de Rayfran das Neves obtida em maio de 2008, por absoluta contrariedade a documentação dos autos e uso de prova ilícita.

3. Quase ao mesmo tempo, o Ministério Público Federal de Altamira concluiu ação e comprovou fraudes e estelionato na papelada de compra e venda do Lote 55, Gleba Bacajá, local do crime. “Contrato” de suposta venda de Regivaldo para Vitalmiro, único álibi de Regivaldo para declarar-se “sem interesses” no crime e afastada das terras desde 2004, é um ato de enganação. “Contrato” fraudulento usado inclusive por seus advogados perante o STF. Inquérito da Polícia Federal comprovou denúncias da Congregação de Notre Dame sobre fraudes da papelada apreendida na casa de Amair Fejoli, dia 15/2/05, quando todos estavam foragidos. A Justiça Federal indiciou o chefe da quadrilha, Regivaldo Galvão, em março de 2009, pelos crimes de fraude documental, estelionato e grilagem de terras públicas do Lote 55.

4. Está desmascarada assim uma das pernas da burlesca cena assistida no júri de 2008. Jurados foram enganados por defesas de Vitalmiro e Rayfran, alguns fazendo troca-troca com a defesa de Regivaldo, que sustentaram a papelada apreendida na casa de Amair como “prova” de que Regivaldo, Vitalmiro e Amair eram “legítimos proprietários de terras legalizadas e produtivas”, “honrados fazendeiros”, ameaçados em seus bens pela freira “invasora”. Desmascarada está que a gangue de grileiros que matou Dorothy estava praticando mais uma de seus crimes e violências com uso de papelada fraudada.

5. A própria irmã Dorothy escreveu para o Corregedor-Geral da Polícia do Pará dias antes do assassinato apontando nomes dos seus algozes. Em 9 de janeiro de 2005, a carta descreve em detalhes o motivo do crime: a violenta reação dos grileiros liderados por Regivaldo Galvão diante das ações oficiais do INCRA reconhecendo a instalação do projeto de desenvolvimento sustentável PDS Esperança no Lote 55 entre outros. A carta relata corajosamente os detalhes das ações violentas do bando de Regivaldo porque Dorothy estava obtendo diversas vitórias legais no reconhecimento dos PDS e assentamentos nos lotes da Gleba Bacajá. Em 5 de janeiro o presidente nacional interino do INCRA visitou o lote 55, depois de audiência em Altamira e assegurou o apoio a implantação do PDS Esperança no lote 55, terra pública. Em 10 de janeiro ela obteve a instauração de inquérito policial que intimava Vitalmiro, Amair, Dominguinhos - um dos “gerentes” de Regivaldo Galvão, pelas ameaças contra lavradores e pela queima de roças e casas. Na carta pedia “medidas urgentes para evitar piores conflitos” e proteção policial para os colonos e assentados ameaçados.

Em depoimento oficial, Clodoaldo Batista, executante, constante nos autos, afirma que em 5 de janeiro, com Rayfan e Amair “queimaram a casa de Luis” na entrada do Lote 55. Não disse que o fogo foi posto com crianças dentro nem que a ordem era intimidar as famílias de colonos em represália pela reunião ali realizada entre colonos, Dorothy e nada menos que o presidente interino do INCRA!

Por tudo isto, a Congregação de Dorothy Stang, chama atenção da sociedade brasileira, das autoridades judiciárias, da imprensa que

a) o que está em jogo na próxima quinta-feira, Dia Internacional dos Direitos Humanos, não é se Rayfran das Neves é culpado ou não dos seis tiros, cinco deles dados pelas costas de Dorothy Stang caída ao chão! Culpado é. Confessou, os tiros foram testemunhados.

b) o que está em jogo é se assistiremos a mais um teatro de falsidades em sala de júri, no qual Rayfran das Neves seguirá roteiro acertado MENTINDO EM JUÍZO IMPUNEMENTE UMA VEZ MAIS para acobertar os seus mandantes, por medo ou busca de recompensa, acumpliciando-se com a quadrilha que planejou o crime e continua manipulando testemunhos, fraudando e falsificando, para enganar a Justiça...

c) ...ou teremos o júri de um elo da cadeia formada hierarquicamente, com mandantes, intermediário e executores, cada um desempenhando nitidamente o seu papel, com o único e comum objetivo de ceifar a vida de Dorothy Mae Stang, repetindo palavras dos Desembargadores do Pará.

A Congregação de Notre Dame de Namur e familiares de Dorothy chamam a atenção da sociedade brasileira para acompanhar os eventos e convidam a presença de jornalistas e autoridades para que se garanta um caminho da justiça e da verdade.

Irmã Jane Dwyer, de Anapu

sábado, 25 de outubro de 2008

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Romaria da Floresta Abertura

A pedidos postamos o vídeo de abertura da Romaria da Floresta em Anapu - Pá



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Poesia - Doroty

IRMÃ DOROTY, TEU SORRISO ANIMA E INCOMODA!

Zé Vicente

Eu fui a Anapu no dia 12 de fevereiro de 2008, três anos depois de teu martírio, Ir.Doroty!

Tuas irmãs, teus irmãos, e toda a tua gente de dor,de luta e de esperança, nos acolheram, a mim, Luizinha Camurça(CPT) e Stênio Pérsico(músico), com alegria de quem sabe muito bem, fazer da morte uma celebração de Vida e Esperança insubmissas.

O caminho percorrido é longo e a caminhada está aí, lenta e desafiante, assim como aquele trecho da transamazônica, esburacada, escorregadia, quando chove e empoeirada, quando o sol esquenta.

Eu vi o Rio Anapu, que chegou até o altar, na Igreja de Santa Luzia, tua colega de testemunho e martírio, durante o ofertório, naquela celebração eucarística de confirmação pascal. E não importa se ainda é quaresma e via-sacra! Com o rio nos braços, os frutos cultivados de maneira sustentável, erguidos nas mãos, berimbaus, flores e troncos em chamas, eu vi, sim, eu vi jovens e crianças, dançando em saudação a Bíblia e às oferendas, num ritual de graça e alegria cristãs.

Eu vi e ouvi o grito profético de D.Erwin Krautler, lúcido bispo católico do Xingu, consciente de sua missão pastoral e dos riscos que corre. Sua palavra, extensão atual, do texto do evangelho do dia ( Mt.6,7-15). Contundente denúncia sobre o descaso de quem tem o poder de governar e fazer justiça - políticos, funcionários públicos, dos órgãos encarregados do zelo da floresta e da vida das famílias que ali estão.

Pai Nosso, venha a nós o vosso Reino, da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça,do amor e da paz!”

Na sua mensagem, D.Erwin, assume a voz dos que não podem falar, assim como deve ser a missão de todo aquele que se põe a serviço do pastoreio de um rebanho, em terras de tantas feras vorazes em ambição de bens e dominação, não importando se o sangue dos justos caiam sobre si. Meu Deus, e essas feras são nossos irmãos na mesma espécie humana!

As denúncias ganharam coro e força,na mensagem dos movimentos sociais e pastorais de Anapu,lida ao final da celebração: “...no terceiro aniversário do bárbaro assassinato de Ir.Doroty, queremos lembrar e viver o seu sonho,um sonho que é também nosso...”

Todos os atos do dia foram temperados com poesias e canções, entre elas aquela que compus no tempo de seca e lutas de 1982, em Crateús-Ceará, “Utopia”, considerada hino da caminhada por ali. Eu ouvi e senti a firmeza nas vozes ecoando Igreja à fora, mata à dentro...

O momento singelo, de peregrinação, atravessando o rio, na ponte balançante, até a tua cova, Doroty, naquele recanto que escolheste,dentro da Floresta, foi marcante e passará a fazer parte de nossas memórias sagradas. O som de tua voz livre, feminina, profética e de teu sorriso contagiante, vive hoje, como nota irmanada ao canto dos grilos, dos pássaros, do vento nas folhas e daquela menina que falou com lágrimas nos olhos, contemplando o teu rosto impresso na cruz: “tirem ela daqui, pra mim levar pra casa!...”

A causa maior, que não é só tua, Ir.Doroty Stang, mas de todos os homens e mulheres de boa vontade, causa sagrada da vida, do Reino de Deus, permanece para além de tua imagem que percorreu o mundo naquele doloroso dia 12 de fevereiro de 2005, como vibração de esperança, mas também como incômodo clamor nos ouvidos dos criminosos assassinos de gente, de animais e da Floresta Amazônica.

E queime também, como fogo abrasador, nos corações de quem tem o dever da ação e está omisso e cúmplice, portanto, dos crimes sem solução, mas também nas almas de quem se diz cristão ou cristã e nada fala ou faz, para testemunhar o compromisso irrestrito e solidário com quem está na missão e correndo riscos de vida, por testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo!


Zé Vicente, poeta-cantor

Contato: zvi@uol.com.br



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

3º Aniversário de morte de Irmã Doroty


O terceiro ano de morte de irmã Dóroty foi celebrado com a proclamação da vida em Anapu. Uma multidão de várias cidades da Transamazônica participou de um dia inteiro de homenagens à religiosa, que teve sua voz calada no dia 12 de fevereiro de 2005, quando seguia para mais uma reunião com os trabalhadores rurais daquele município.
Veja no vídeo acima.

Reportagem: Christianne Oliveira
Imagens: Erivaldo Andrade
Edição: Frederico Vicentini

Irmã Dorothy Mae Stang - Homilia de Dom Erwin

Homilia de Dom Erwin Krautler na Eucaristia celebrada por ocasião do terceiro aniversário de morte de Irmã Dorothy Mae Stang.

Caríssimos irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo,

Celebramos o terceiro aniversário de morte de nossa Irmã Dorothy. Em 12 de fevereiro de 2005 ela foi brutalmente executada. Durante esses três anos muitas vezes fui perguntado por que uma Irmã que consagrou sua vida aos pobres e acompanhou sua luta por mais dignidade, por justiça e pelos mais elementares direitos de ter um chão para plantar e colher, por que essa Irmã dos pobres sofreu uma morte tão cruel. A resposta é simples e todos nós sabemos qual é. Ao colocar-se decididamente ao lado dos desfavorecidos, excluídos por um sistema capitalista selvagem que reina em nossa região, ela contrariou os interesses e as ambições de uma oligarquia que quer apoderar-se da Amazônia para usufruir de suas riquezas sem nenhuma preocupação pelas conseqüências para as futuras gerações. O lema é „aproveite-se enquanto puder“ e quem esboçar uma reação contra esta investida, corre risco de vida porque os representantes deste sistema agressivo à Amazônia reagem e conspiram imediatamente contra quem não rezar por sua cartilha. Dorothy foi vítima de seu amor à Amazônia. Por causa deste amor perdeu a vida.

A classe política se fez presente no dia do sepultamento de nossa Irmã. Anapu nunca viu tanto senador e deputado federal ou estadual. Hoje estou convicto de que a maioria dos que se fizeram presentes naquele funeral veio por causa da mídia que cobriu o triste evento. Essas autoridades que choraram ao lado do féretro queriam mostrar para o mundo que não compactuam com a morte e violência na Amazônia. Mas não deram nenhuma amostra de engajamento corajoso e valente para mudar a realidade. Não se converteram e a idéia de desenvolvimento que têm em relação a nossa região é meramente economicista. Pensa-se só em lucros imediatos e propositadamente se ignora as perdas irreparáveis. Delega-se às futuras gerações o enfrentamento da desgraça causada nestes tempos. É abominável uma geração descuidar de seus filhos e netos, deserdando-os por privá-los das mais elementares condições de sobrevivência.

Nos meses passados fomos sempre de novo alertados para o risco que a Amazônia corre, de sofrer danos sem precedentes. O ambicioso Plano de Aceleração do Crescimento, PAC, visa melhorar a infra-estrutura de transportes, comunicação e energia na região. À primeira vista o plano parece favorável à região. No entanto traz no bojo a ameaça de destruição da maior floresta tropical do mundo. Ao lado das investidas da parte de fazendeiros que mesmo multados insistem nas queimadas, ao lado da exploração por parte de madeireiros que, apesar de terem sido confiscados milhares de toras, continuam a derrubar, serrar e transportar clandestinamente madeiras de lei, ao lado desta depredação já em curso, a construção de barragens e de extensos linhões para transmissão de energia elétrica levará fatalmente a um desmatamento generalizado. Irmã Dorothy foi morta porque denunciou essas agressões ao meio-ambiente que já a médio prazo prejudicarão o lar (oikos) habitado pelos povos da Amazônia.

Causa-nos revolta e indignação que o segundo julgamento do réu confesso Rayfram foi anulado, alegando-se que, „ao executar a freira, estaria potencialmente sob ameaça de cinquenta homens armados, os posseiros de Dorothy Stang“. É incrível até que ponto um advogado de defesa chega e mais incrível ainda é que não foi preso por ter levianamente acusado os agricultores do PDS de „pistoleiros“, equiparando-os ao criminoso que matou a Irmã. E pior, graças a essa intervenção o júri é anulado!

Que Justiça é essa que de repente inverte os papéis, imputando a criminalidade à pobre Irmã que derramou seu sangue e alegando legitima defesa para o assassino que disparou cinco tiros em cima da vítima indefesa, cuja única arma fora a Bíblia Sagrada?

Que Justiça é essa que depois de três anos não conseguiu ainda completar os inquéritos ou então os encerrou por motivos que nunca conseguem convencer-nos?

Que Justiça é essa que adia de ano em ano o processo contra pessoas altamente suspeitas de ter encomenado o crime?

Que Justiça é essa que nunca levou a sério a existência do „consórcio do crime“ nesta terra?

O Evangelho proclamado neste dia (Mt 6,5-14) faz parte do Sermão da Montanha. Jesus ensina a seus discípulos e discípulas a rezar. É a oração por excelência da Igreja e de todos os cristãos e cristãs. Cada versículo merece uma meditação especial, cada palavra é sacrossanta e toca o nosso coração.

No contexto desta Santa Missa em que lembramos o terceiro aniversário de morte da Irmã Dorothy, escolhemos o pedido „Venha nós o vosso Reino!“

Nascemos neste mundo, mas somos cidadãos, cidadãs de outro mundo. Somos chamados a colaborar na construção de um Reino que não é deste mundo, mas é para este mundo. Essa missão não é nada fácil. Somos enviados „como ovelhas entre lobos“ (Mt 10,16; Lc 10,3). Muitos rejeitam a mensagem que queremos anunciar. Não a rejeitam apenas, mas querem eliminar a mensagem e a quem a anuncia. Mas também nesta realidade conflitiva ouvimos as palavras de Jesus: „o servo, a serva não é maior que o seu senhor. Se eles me perseguiram, também a vós perseguirão“ (Jo 15,20). O Reino é dádiva divina, é graça de Deus, mas não dispensa nosso empenho. O que caracteriza mesmo o cristão, a cristã, é a perseverança em meio a adversidades e frente ao ódio e à violência.

Tombam irmãos e irmãs, sacrificados, executados pelos asseclas de um sistema iníquo, mas quem acredita no Reino de Deus e em sua justiça, não vacila nem treme. O sangue derramado de Irmã Dorothy, de Dema, de Brasília e de tantos outros por esta Amazônia afora é semente fecunda que se multiplica em inúmeros irmãos e irmãs que continuam no Caminho, apostam na utopia do Reino, acreditam no triunfo final de Cristo Senhor, não recuam e, se preciso for, estão dispostos a dar até a própria vida.

Venha a nós o Vosso Reino!“ „Reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz” (Prefácio de Cristo Rei). Amem.

Anapu, 12 de fevereiro de 2008
Erwin Krautler, Bispo do Xingu

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A Semente Plantada deu Fruto


As comunidades de Anapu convidam as comunidades, movimentos populares, e todos e todas que buscam um mundo melhor, mais justo, mais irmão a celebrar conosco a Vida e o Compromisso de Irmã Dorothy Stang, no dia 12 de fevereiro de 2008, ocasião do 3º Aniversário de sua morte, morte bárbara e cruel. Lembramos neste dia, que apesar da Irmã Dorothy ter defendido a vida do povo com a sua própria vida, que apesar de grandes promessas políticas na parte do governo, do Ministério Público Federal e Estadual, do INCRA e do IBAMA de regularizar a situação fundiária e florestal no estado do Pará, pouca coisa tem mudado desde 2005. Apesar de denúncias constantes a floresta continua a cair, os manejos florestais ilegais continuam a aparecer, os caminhões madeireiros andam dia e noite em nossas estradas, os assentamentos do povo estão longes de ser consolidados, a procuradoria do INCRA para regularizar as situações “sob judice” e outras nunca aparece, o processo judicial contra os que mataram a Irmã Dorothy caminha devagar e cheio de “surpresas”, enfim as promessas continuam ocas e vazias, promessas traidoras.

Mas nem por isso vamos desistir da caminhada. Este ano o tema de nossa comemoração é: A Semente Plantada deu Frutos!

Estes frutos somos nós, e apesar de tantas barreiras, dificuldades, ameaças e problemas, vamos continuar esta luta por uma vida mais digna e justa para nós e toda a natureza que Deus nos deu.

A celebração de 2008 vai ser mais participada e animada de todas as celebrações até hoje. Teremos conosco, Zé Vicente, para acompanhar todas as atividades e terminar com um “show” às 20 horas no Clube Tropical. Segue o roteiro do dia que queremos partilhar e comemorar com vocês:

- 9,00 Celebração da Santa Missa com Crisma - Dom Erwin
- 12,00 Almoço Comunitário – Salão Paroquial Padre Josimo
- 14,00 O Palco das Comunidades (Apresentações, poesias, músicas, denúncias, cobranças...tudo que precisa fazer!) Clube Tropical
- 16,30 Visita comunitária com oração ao túmulo de Irmã Dorothy – São Rafael
- 18,00 Jantar comunitário (a partir das 18 horas) – Salão Paroquial Padre Josimo
- 20,00 Show de Zé Vicente, intercalado com os e as artistas das comunidades de

Anapu e outros lugares, terminando com o Forró da Dorothy! - Tudo no Clube Tropical


Venham comemorar, celebrar e caminhar!

Texto de Jane Dwyer